Naquele dia 14 de Maio de 2008, naquela vila de Soure, naquela sede da Santa Casa da Misericórdia, passámos momentos que jamais esqueceremos…
-Vai começar…é agora o momento – dizia a stora Ana Paula - Calem-se…oh Cátia não te ponhas assim.
- Ai Adriana, que tenho de ir ao WC…
- Chiguuu, ‘tá a começar
As lágrimas de nervos iam caindo…”Ai não aguento, acho que não consigo” – dizia a Ângela em angústia.
- Força, tem calma – diziam os que ali estavam na tentativa de conforto.
Tuturummm tututrummm, as batidas da caixa já soam, abre-se o pano e…uma plateia inteira aguarda ansiosamente as primeiras palavras.
Ao entrar no palco tudo passou, os olhos já secos brilhavam imenso ao ouvir os primeiros risos….
“Estas pessoas saíram todas de casa só para nos verem? Ai isto vai dar barraca”- pensávamos.
A mocidade já marchava, as mulheres do povo já em cima do palco faziam rir os demais que ali se encontravam… Entra o Zé Povinho com as seus resmungos habituais e ainda bem que chegou porque quando estão as três personagens em palco sentimo-nos mais seguras!
Demos por nós e já o Salazar estava em palco acompanhado pela sua senhora.
- era a dona Maria Jesus Caetano Freire.
- a Presidenta, a Primeira Dama?
- (…) a mulher era só a governanta.
Os pensamentos eram inevitáveis “olha o Zé Povinho a meter-se com o publico, aquela Ângela é doida, ai Sara dá-me a deixa que me deu uma branca, ah é isso, já me lembrei.”
Duas prostitutas e uma Nossa senhora entram em palco, é a loucura, as pessoas riem-se, dão gargalhadas, “felizmente estão a gostar”- pensávamos enquanto fingíamos beber o vinho na tasca.
Agora é a vez das duas “Tias”, risos e mais risos suavam naquela sala.
“Morre” o Salazar e dá-se o funeral…as carpideiras (fingidas) choram a morte do seu mui amado presidente, gritam enquanto outros se riem.
Dá-se o 25 de Abril e acorda-se 34 anos mais tarde…
Entra o cromo da bola com a sua “tranquilidade”… Tudo “acabou” com as mulheres do povo em cima duma Égua, que virou Cavala, o Zé povinho atrevido a meter-se com o publico, e os rapazes e as storas a cantarem “A paz, o pão, habitação, Saúde Educação!”…
O pano fechou-se, e voltou a abrir-se ao som daquelas palmas maravilhosas, era o reconhecimento por parte de toda aquela multidão. O reconhecimento do nosso valor, do entusiasmo, das gargalhadas, dos momentos mais sérios, do sucesso…
Não existem palavras para descrever, só nos ocorre uma, a mais verdadeira e sentida: “obrigada”, apesar de acharmos insuficiente para demonstrar este sentimento, o quanto ficamos felizes com as palavras que ouvimos…enfim, estes foram alguns dos bons momentos que passámos nesta deliciosa peça.
O sorriso, a alegria, o orgulho que sentimos são as forças que precisamos para não deixarmos este percurso maravilhoso. Não queremos um fim, pelo contrário, quero mais e mais, queremos um sem fim de união, queremos que esta felicidade e prazer de fazer teatro com pessoas que adoramos perdure anos sem fim! Desejamos que este grupo que tanto nos uniu, que tanto nos fez sorrir, nos fez crescer continue, queremos mais momentos de cumplicidade e amizade, dentro e fora do palco, queremos aqueles momentos que tanto nos alimenta o ego, que tanto enriquecem o nosso coração feliz por todo este episódio ter acontecido e entristecido com a possibilidade de terminar…
“Uma desgraça nunca vem só” transformou-se em “uma alegria nunca vem só” e não veio mesmo, veio cheio de coisas novas: portas abertas, horizontes esplêndidos bem há nossa frente, amizades novas e fortalecidas, e tantas outras coisas...
Por tudo o que foi descrito imploramos que não nos apague a chama que nasceu em nós, que não nos destruam o sonho…
Com este teatro mudámos muito, (Ângela e Cátia) crescemos e aprendemos. Descobrimo-nos uma há outra, vivemos momentos únicos, especiais inesquecíveis. Conhecemo-nos e descobrimos que somos iguais, passámos de simples colegas de turma a verdadeiras amigas…um sorriso diferente, um olhar divertido, uma palavra amiga fez mudar tudo…tornamo-nos importantes uma para a outra, inseparáveis.
Enfim, muito por causa do teatro, pela união que tivemos de ter, pelos momentos incríveis que passamos em cima do palco, fora do palco, naquela tarde de tantas risadas, de tanta cumplicidade e amizade…
Não tirem este sonho tornado real das nossas vidas, porque do coração nunca ninguém as poderá apagar!
Aguardamos ansiosamente a(s) próxima(s) actuação(ões)
Obrigada.
Ângela Ribeiro
Cátia Castanheira