quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Tempos.

Haviam brinquedos espalhados pelo barro da eira, faziam-se bolos de areia por mãos pequenas e inocentes e ouviam-se histórias da vida e orações enquanto o luar atravessava a janela no canto do quarto com quatro paredes brancas e gastas.
Não esqueço as badaladas que o sino lá no alto do vale fazia suar no romper das horas e recordo-me de quando a avó te pedia ‘- Deixa a Catita dormir hoje no meio. E tu respondias ‘-Não, eu vim para aqui primeiro. Julgava-te arrogante, naquela altura nem sabia qual era o significado disso e depois pela manhã esquecia quando tu dizias ‘-Bom dia, dormiste bem? Eras meiga e imploravas para que voltasse.
Eu voltava e ainda hoje volto, mas já não encontro os brinquedos ocultados pelos caixotes do tempo e há muito que o vento comeu os bolos de areia e o barro afundou-se pelo cimento da eira hoje modificada pelas mãos fortes e corpos mobilizados por interesses de trabalho sem a mínima inocência.
Hoje continua a janela ao canto do quarto de quatro paredes mais claras que cheiram a fresco e a novo. Haverá sempre na minha memória um corredor com um quadro de família.
Haverá sempre e para sempre no interior do nosso olhar duas crianças que cresceram inseparáveis.


Cátia Castanheira