sábado, 19 de julho de 2008

A tela .

Insiro o pincel na tela mergulho-o no verde dos olhos, no castanho dos cabelos, no bege da pele, rodo-o misturo um sem fim de cores na tentativa de encontrar a cor ausente.
Disperso-me pela tela, em linhas rectas procuro o meu caminho, é neste quadro que anseio pela mão do artista.
Miro a sombra que paira sobre o chão, meramente a minha sombra que corre pela alcatifa da sala do pintor, tentado esconder o meu ego, talvez seja o medo de ele ficar marcado no quadro…
Anseio pelo esboço, anseio pela cor ausente…anseio rasgar o papel e apagar os riscos mal feitos do passado.
Eis o dia em que ele me pinta, traçando o destino de um corpo que perdera a cor, um corpo que se separa da sombra, um corpo que já não o é.
Violentamente atira a minha alma dorida e confusa para um pedaço de pano onde pinta os seus quadros, e dá voltas e voltas ora um pouco de preto ali, um pouco de rosa ali, agora azul…mais um risco outro e outro risco.
Resta a sombra que ainda dança pelo corredor, e em momentos de sol, esconde-se atrás do ombro do artista apreciando a obra de arte a que eu mesma me sujeitei, na verdade entreguei-me ao dono do pincel que anos mais tarde morrerá.
Transformei-me num quadro de corredor de uma casa abandonada onde em cantos obscuros ainda se ouve os gritos de medo, nas gavetas das mobílias guardam-se nostalgias, e as paredes começam a perder a cor, o tecto começa a desabar, mas ainda na alcatifa mora a sombra que antigamente fugia da tela.
Por entre tempestades, entre os raios de sol, entre a noite…o abstracto e o real, entre a vida, confusões, na solidão … ainda resta a sombra que protege o ego.


Cátia Castanheira.
( Para ti Lena :).. )

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Guerra de Amor.


E eis a exaltação de um grito de guerra.
Fogo que incendeia o coração, fogo de canhões, faíscas de beijos, raios de trovões, lava de vulcões que escaldam os olhos cegos, a nau que arrasta o guerreiro pelas águas da fonte.
Cada bala foi rasgando a farda de Ulisses, a esperança que trazia num escudo de aço roubara-lhe um pedaço de vida.
Fascinado por (uma) Circe fez-se Cativeiro do passado e refém do presente enfeitiçado por um canhão de pólvora com uniforme de varinha mágica…era ao romper da aurora que se sentava no degrau da muralha onde compunha poemas melancólicos inspirados em pensamentos profundos de angústia e desespero.
‘Desejo que se afaste
Choro lágrimas húmidas
Tentado apagar…
O fogo que incendeia o peito
Porém ainda há a sua sombra
Que foge para o abismo…
Abismo em mim,
Tão profundo quão o Amor
Que sinto por si ‘
Passava horas a escrever, enfrentava o batalhão das lágrimas e as memórias sangrentas, além disso rezava aos deuses para que Circe um dia voltasse…tanta vez o fizera que a sua voz começara a enrouquecer, de tanto chorar gastaram-se as gotas da fonte triste que antes lhe inundavam o rosto, as forças gastas na batalha fizeram Ulisses partir, alvejado na alma apaixonada que se tornara somente escura.
O feitiço quebrou-se e um dia ao amanhecer questionou “ O que faço aqui eu?!” erguendo um sorriso lançado por uma pomba branca.
Ainda hoje dentro do cavalo de Tróia guarda os poemas para Circe, a espada da glória, o Escudo alvejado, a farda rasgada e as dinamites verbais.
Fim de guerra…
O coração renasceu, perdura hoje um sorriso brilhante jamais sentido, e na alma…na alma restam as cinzas.

Cátia Castanheira.

sábado, 12 de julho de 2008

Flutuo.

Difícil é começar…
Difícil mergulhar no mar da desilusão tão cheio de lágrimas salgadas, águas frias que nos embarcam os sentidos.
Mas por impulso decidimos arriscar o quentinho da ilusão pelo gelo da desilusão.
Uma vez envolvidos nessas águas trazemos ainda nos pés pequenos grãos de areia quentes que simbolizavam a ilusão, essa que se mistura nas tais águas da desilusão.
Embora oiça passos e vozes trazidas e levadas pelo vento, a minha alma absorve-se em si mesma.
Mundo pequeno este…ora transportado pelo comboio que pára em cada estação de toda a região embarca ricos e pobres, velhos ou novos, louros, morenos, magros e gordos, crianças e adultos, enfim seguem o seu destino.
Ora navegando na corrente que nos leva…pode-nos levar para longe, para muito muito longe.
Ora agora caminhando sobre a areia quente escutando as ondas do mar que se enrolam na areia.
Olhos nas ondas e digo – Não mar, não quero mais amar as tuas águas frias que fazem tremer…os sentidos.
Prefiro a areia quente onde muitos são felizes, onde escrevo sobre pensamentos constantes e permanentes que chegam a ser intensos dando voltas e voltas no meu interior, onde em paço lento embalada pela balada a minha alma se dissipa, caminhando vagamente e arrastadamente deixa os seus passos…e secretamente sente o mar o amar, a ilusão e a desilusão.
Em segredo respirando ao teu ouvido procurando o embate das ondas nas rochas, ouvindo o teu grito, abraça a tua brisa, sem medo de se afogar na desilusão, podes bem gracejar das bóias do passado, tanta vez tentei mortificar a saudade escutando-te num búzio, e dos castelos de areia que fazia pensado no príncipe encantado, mas hoje aprendi a flutuar.


Cátia Castanheira

Poesia na veia

Injecto soro na veia
Aniquilo a angustia
Que me incendeia
Acordo os sentidos
E ao fundo há uma luz
Que me encadeia
No silencio da sala
Faço da inspiração
O rastilho da imaginação

Escrevo poesia
Ao ritmo da pulsação
Pula o coração
De tão forte emoção.

Desesperadamente esfaqueio a veia
Instantaneamente é essa a ideia
Se é poesia que me corre na veia
Procuro resgata-la para a minha teia
Desejo sentir na mão
O sangue e sua imensidão
Apalpa-la
Depois rasga-la
Para observar afinal
Do que é feita então.

Cátia Castanheira

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Máscara desenhada.


Tinta, riscos e linhas cuidadosamente traçam o rosto dos que tentam ocultar algo.
Assumem então o papel de palhaço, desenhando-lhes no rosto um sorriso aparentemente límpido, e ao redor das pupilas as linhas que rasgam o olhar como se facas que lhe rasgam a alma desmoralizada na tentativa de esboçar na pele um olhar cristalino.
A roupa tenta disfarçar os ombros tombados da esperança que se perdeu algures no tempo.
Quando a máscara cai, revela-se a fraqueza, e pequenas gargalhadas que se tentam esconder atrás das palavras lançadas pela voz grosseira e fútil, mas de mansinho quase sem se ouvirem elas emitem um eco que acaba sempre por cair no abismo da vergonha.
Nas jaulas das feras, está presa a inocência que não deixa os outros acreditarem na magia e na ilusão e a mais pura sinceridade, está presa a alegria que não existe.
Os passos gastos dos caminhos longos percorridos no tempo, manifestam-se num fio fino lá no alto… ao mínimo descuido tombam para o chão, as mãos frias da tempestade da vida fazem grandes habilidades com jogos malabares, alguns fintam as tristezas e fazem golos de alegria, outros desistem à primeira bola que cai também estes são escravos da máscara que os faz desistir.
As horas passam e acaba-se mais um espectáculo, as cortinas fecham-se e os aplausos ficam cada vez mais baixos até que desaparecem como a gargalhada que desaparece no abismo da vergonha.
Já nada é como era para o palhaço, uma simples lágrima até de emoção esborrata o rosto desenhado, depois de tanto esconder o óbvio ele acaba por se adaptar aquela máscara e a realidade já não lhe agrada, ele sente-se como aqueles leões presos nas jaulas que anseiam sair.
É uma tela, um escravo do lápis e do pincel, sujeitado a imitação da alegria transfigurada no seu rosto.


Cátia Castanheira