quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Tempos.

Haviam brinquedos espalhados pelo barro da eira, faziam-se bolos de areia por mãos pequenas e inocentes e ouviam-se histórias da vida e orações enquanto o luar atravessava a janela no canto do quarto com quatro paredes brancas e gastas.
Não esqueço as badaladas que o sino lá no alto do vale fazia suar no romper das horas e recordo-me de quando a avó te pedia ‘- Deixa a Catita dormir hoje no meio. E tu respondias ‘-Não, eu vim para aqui primeiro. Julgava-te arrogante, naquela altura nem sabia qual era o significado disso e depois pela manhã esquecia quando tu dizias ‘-Bom dia, dormiste bem? Eras meiga e imploravas para que voltasse.
Eu voltava e ainda hoje volto, mas já não encontro os brinquedos ocultados pelos caixotes do tempo e há muito que o vento comeu os bolos de areia e o barro afundou-se pelo cimento da eira hoje modificada pelas mãos fortes e corpos mobilizados por interesses de trabalho sem a mínima inocência.
Hoje continua a janela ao canto do quarto de quatro paredes mais claras que cheiram a fresco e a novo. Haverá sempre na minha memória um corredor com um quadro de família.
Haverá sempre e para sempre no interior do nosso olhar duas crianças que cresceram inseparáveis.


Cátia Castanheira

domingo, 23 de novembro de 2008

[Pára de fazer sentido]

Era uma vez um cão peludo e careca que gostava de nadar, e num dia de sol á noitinha morreu afogado na terra.
O cão miou aflito de satisfação e disse - estou morto!
Saiu da terra todo molhado e começou a correr devagar para ver se ouvia a Roxinola Caracola que era a mais velha da Selva onde não havia ninguém, pelo caminho o cão lambeu o dorso com o nariz e cheirou umas flores bonitas com a língua, decidiu apanha-las com as mãos para oferecer à Caracola.
Encontrou a Caracola que era doida da tola que estava a chorar desalmadamente, o cão preocupado e a sorrir perguntou:- O que tens Caracola?
Ela respondeu : - A minha vida não faz mesmo sentido.
O cão puxou um lenço do bolso e limpou-lhe o rosto, sentaram-se num banco de madeira que era de pedra e ele ofereceu-lhe as flores.
- As coisas boas da vida nem sempre têm que fazer sentido.


Cátia Castanheira

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Rascunhos :)

Rasto de folhas de papel, enrolam-se as páginas em ciclos viciosos que perturbam a alma branca traçada por linhas planas interceptadas por riscos não tão perfeito quão a plenitude de um lápis aparado. Escrevem sobre pensamentos e actos, redigem o correcto e incorrecto, desejam a perfeição das suas próprias e ridículas ambições.Gracejam das letras minúsculas e temem as maiúsculas.
Em mim tenho em posse a mão que tem no seu conteúdo um pouco de inspiração que me permita ir mais além das ultimas frases expostas, arrisco fechar os olhos e sentir as mãos a quererem agarrar as emoções que traduzo por palavras e sem eu dar conta as veias a encheram-se de um liquido transparente que no momento de auge ejectam a inspiração interior.Redijo, apago, risco e retrocedo. O Prazer de escrever é me
indescritível, nasceu inacabado e vai crescendo...Completa-me.

Cátia Castanheira

sábado, 19 de julho de 2008

A tela .

Insiro o pincel na tela mergulho-o no verde dos olhos, no castanho dos cabelos, no bege da pele, rodo-o misturo um sem fim de cores na tentativa de encontrar a cor ausente.
Disperso-me pela tela, em linhas rectas procuro o meu caminho, é neste quadro que anseio pela mão do artista.
Miro a sombra que paira sobre o chão, meramente a minha sombra que corre pela alcatifa da sala do pintor, tentado esconder o meu ego, talvez seja o medo de ele ficar marcado no quadro…
Anseio pelo esboço, anseio pela cor ausente…anseio rasgar o papel e apagar os riscos mal feitos do passado.
Eis o dia em que ele me pinta, traçando o destino de um corpo que perdera a cor, um corpo que se separa da sombra, um corpo que já não o é.
Violentamente atira a minha alma dorida e confusa para um pedaço de pano onde pinta os seus quadros, e dá voltas e voltas ora um pouco de preto ali, um pouco de rosa ali, agora azul…mais um risco outro e outro risco.
Resta a sombra que ainda dança pelo corredor, e em momentos de sol, esconde-se atrás do ombro do artista apreciando a obra de arte a que eu mesma me sujeitei, na verdade entreguei-me ao dono do pincel que anos mais tarde morrerá.
Transformei-me num quadro de corredor de uma casa abandonada onde em cantos obscuros ainda se ouve os gritos de medo, nas gavetas das mobílias guardam-se nostalgias, e as paredes começam a perder a cor, o tecto começa a desabar, mas ainda na alcatifa mora a sombra que antigamente fugia da tela.
Por entre tempestades, entre os raios de sol, entre a noite…o abstracto e o real, entre a vida, confusões, na solidão … ainda resta a sombra que protege o ego.


Cátia Castanheira.
( Para ti Lena :).. )

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Guerra de Amor.


E eis a exaltação de um grito de guerra.
Fogo que incendeia o coração, fogo de canhões, faíscas de beijos, raios de trovões, lava de vulcões que escaldam os olhos cegos, a nau que arrasta o guerreiro pelas águas da fonte.
Cada bala foi rasgando a farda de Ulisses, a esperança que trazia num escudo de aço roubara-lhe um pedaço de vida.
Fascinado por (uma) Circe fez-se Cativeiro do passado e refém do presente enfeitiçado por um canhão de pólvora com uniforme de varinha mágica…era ao romper da aurora que se sentava no degrau da muralha onde compunha poemas melancólicos inspirados em pensamentos profundos de angústia e desespero.
‘Desejo que se afaste
Choro lágrimas húmidas
Tentado apagar…
O fogo que incendeia o peito
Porém ainda há a sua sombra
Que foge para o abismo…
Abismo em mim,
Tão profundo quão o Amor
Que sinto por si ‘
Passava horas a escrever, enfrentava o batalhão das lágrimas e as memórias sangrentas, além disso rezava aos deuses para que Circe um dia voltasse…tanta vez o fizera que a sua voz começara a enrouquecer, de tanto chorar gastaram-se as gotas da fonte triste que antes lhe inundavam o rosto, as forças gastas na batalha fizeram Ulisses partir, alvejado na alma apaixonada que se tornara somente escura.
O feitiço quebrou-se e um dia ao amanhecer questionou “ O que faço aqui eu?!” erguendo um sorriso lançado por uma pomba branca.
Ainda hoje dentro do cavalo de Tróia guarda os poemas para Circe, a espada da glória, o Escudo alvejado, a farda rasgada e as dinamites verbais.
Fim de guerra…
O coração renasceu, perdura hoje um sorriso brilhante jamais sentido, e na alma…na alma restam as cinzas.

Cátia Castanheira.

sábado, 12 de julho de 2008

Flutuo.

Difícil é começar…
Difícil mergulhar no mar da desilusão tão cheio de lágrimas salgadas, águas frias que nos embarcam os sentidos.
Mas por impulso decidimos arriscar o quentinho da ilusão pelo gelo da desilusão.
Uma vez envolvidos nessas águas trazemos ainda nos pés pequenos grãos de areia quentes que simbolizavam a ilusão, essa que se mistura nas tais águas da desilusão.
Embora oiça passos e vozes trazidas e levadas pelo vento, a minha alma absorve-se em si mesma.
Mundo pequeno este…ora transportado pelo comboio que pára em cada estação de toda a região embarca ricos e pobres, velhos ou novos, louros, morenos, magros e gordos, crianças e adultos, enfim seguem o seu destino.
Ora navegando na corrente que nos leva…pode-nos levar para longe, para muito muito longe.
Ora agora caminhando sobre a areia quente escutando as ondas do mar que se enrolam na areia.
Olhos nas ondas e digo – Não mar, não quero mais amar as tuas águas frias que fazem tremer…os sentidos.
Prefiro a areia quente onde muitos são felizes, onde escrevo sobre pensamentos constantes e permanentes que chegam a ser intensos dando voltas e voltas no meu interior, onde em paço lento embalada pela balada a minha alma se dissipa, caminhando vagamente e arrastadamente deixa os seus passos…e secretamente sente o mar o amar, a ilusão e a desilusão.
Em segredo respirando ao teu ouvido procurando o embate das ondas nas rochas, ouvindo o teu grito, abraça a tua brisa, sem medo de se afogar na desilusão, podes bem gracejar das bóias do passado, tanta vez tentei mortificar a saudade escutando-te num búzio, e dos castelos de areia que fazia pensado no príncipe encantado, mas hoje aprendi a flutuar.


Cátia Castanheira

Poesia na veia

Injecto soro na veia
Aniquilo a angustia
Que me incendeia
Acordo os sentidos
E ao fundo há uma luz
Que me encadeia
No silencio da sala
Faço da inspiração
O rastilho da imaginação

Escrevo poesia
Ao ritmo da pulsação
Pula o coração
De tão forte emoção.

Desesperadamente esfaqueio a veia
Instantaneamente é essa a ideia
Se é poesia que me corre na veia
Procuro resgata-la para a minha teia
Desejo sentir na mão
O sangue e sua imensidão
Apalpa-la
Depois rasga-la
Para observar afinal
Do que é feita então.

Cátia Castanheira

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Máscara desenhada.


Tinta, riscos e linhas cuidadosamente traçam o rosto dos que tentam ocultar algo.
Assumem então o papel de palhaço, desenhando-lhes no rosto um sorriso aparentemente límpido, e ao redor das pupilas as linhas que rasgam o olhar como se facas que lhe rasgam a alma desmoralizada na tentativa de esboçar na pele um olhar cristalino.
A roupa tenta disfarçar os ombros tombados da esperança que se perdeu algures no tempo.
Quando a máscara cai, revela-se a fraqueza, e pequenas gargalhadas que se tentam esconder atrás das palavras lançadas pela voz grosseira e fútil, mas de mansinho quase sem se ouvirem elas emitem um eco que acaba sempre por cair no abismo da vergonha.
Nas jaulas das feras, está presa a inocência que não deixa os outros acreditarem na magia e na ilusão e a mais pura sinceridade, está presa a alegria que não existe.
Os passos gastos dos caminhos longos percorridos no tempo, manifestam-se num fio fino lá no alto… ao mínimo descuido tombam para o chão, as mãos frias da tempestade da vida fazem grandes habilidades com jogos malabares, alguns fintam as tristezas e fazem golos de alegria, outros desistem à primeira bola que cai também estes são escravos da máscara que os faz desistir.
As horas passam e acaba-se mais um espectáculo, as cortinas fecham-se e os aplausos ficam cada vez mais baixos até que desaparecem como a gargalhada que desaparece no abismo da vergonha.
Já nada é como era para o palhaço, uma simples lágrima até de emoção esborrata o rosto desenhado, depois de tanto esconder o óbvio ele acaba por se adaptar aquela máscara e a realidade já não lhe agrada, ele sente-se como aqueles leões presos nas jaulas que anseiam sair.
É uma tela, um escravo do lápis e do pincel, sujeitado a imitação da alegria transfigurada no seu rosto.


Cátia Castanheira

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Saudade emocionante


É ao passar por aquela rua que de mansinho bate as portas do coração a saudade.
Assim que as abro, também os olhos sentem, então são palavras e imagens que desde o início estiveram guardadas começam aos pulos do lado esquerdo do peito.
Há um turbilhão de emoções que se soltam, as vezes até parecem ondas que agitadamente me fazem mergulhar numa imensidão de momentos.
É sobretudo de vocês que tenho saudades, os lábios abrem-se automaticamente, alongam-se como um elástico permanente, o tal sorriso.
E ao olhar para o meu horizonte eu consigo ver-nos a nascer e a crescer, A semente semeada por todos nós deu frutos saborosos, até que um dia se torna numa grandiosa árvore com grandes ramos, que transbordarão orgulho, e de tanta emoção eles chorarão clorofila substituindo as lágrimas húmidas que tantos bons momentos fazem escorrer pelo rosto alongado pelo tal “elástico”.
Cátia Castanheira

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Só.



Um corpo só e frágil,
O coração que ansiosamente anseia paixão.
Em silêncio anseia o tal abraço.
A essência perfeita da palavra,
A emoção nunca antes sentida.
Tudo começa nos olhos,
Escorre amor pelo rosto entristecido,
Talvez seja a prova.
Os lábios gretados do tempo que passou,
Esses nunca mais beijaram,
Nunca mais sentiram o calor do amor…
No espelho cravam-se as imagens.
Nunca chegou a ser perfeito
Nunca ambicionamos perfeição
Éramos felizes assim
E cada sorriso avistado, prende o olhar
A mente ainda posta no espelho
Analisa cada pormenor, cada gesto
O meu vento, o meu ar
Só nostalgia.


Cátia Berardo Castanheira.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Palavras...

As tuas palavras leva-as o vento,
Para um lugar rumo ao infinito,
O mar, talvez o mar…
Que as enrola como papéis inúteis
Á noite, nas ondas escondem-se as reticências
Que davam continuação a nossa história
As vírgulas afundam-se
A respiração já não existe
Os olhos, então fecham-se
E as palavras tornam-se salgadas
Já não existe anzol que as salve
O vento, leva-as com força
Para o infinito
Até lá atravessarão sete mares
E darão voltas e voltas
Em diferentes ares
Lá estarão seguras
E serão apenas…
Infinitas.


Cátia

sábado, 24 de maio de 2008

Naquele dia 14 de Maio de 2008, naquela vila de Soure, naquela sede da Santa Casa da Misericórdia, passámos momentos que jamais esqueceremos…

-Vai começar…é agora o momento – dizia a stora Ana Paula - Calem-se…oh Cátia não te ponhas assim.
- Ai Adriana, que tenho de ir ao WC…
- Chiguuu, ‘tá a começar
As lágrimas de nervos iam caindo…”Ai não aguento, acho que não consigo” – dizia a Ângela em angústia.
- Força, tem calma – diziam os que ali estavam na tentativa de conforto.
Tuturummm tututrummm, as batidas da caixa já soam, abre-se o pano e…uma plateia inteira aguarda ansiosamente as primeiras palavras.
Ao entrar no palco tudo passou, os olhos já secos brilhavam imenso ao ouvir os primeiros risos….
“Estas pessoas saíram todas de casa só para nos verem? Ai isto vai dar barraca”- pensávamos.
A mocidade já marchava, as mulheres do povo já em cima do palco faziam rir os demais que ali se encontravam… Entra o Zé Povinho com as seus resmungos habituais e ainda bem que chegou porque quando estão as três personagens em palco sentimo-nos mais seguras!
Demos por nós e já o Salazar estava em palco acompanhado pela sua senhora.
- era a dona Maria Jesus Caetano Freire.
- a Presidenta, a Primeira Dama?
- (…) a mulher era só a governanta.
Os pensamentos eram inevitáveis “olha o Zé Povinho a meter-se com o publico, aquela Ângela é doida, ai Sara dá-me a deixa que me deu uma branca, ah é isso, já me lembrei.”
Duas prostitutas e uma Nossa senhora entram em palco, é a loucura, as pessoas riem-se, dão gargalhadas, “felizmente estão a gostar”- pensávamos enquanto fingíamos beber o vinho na tasca.
Agora é a vez das duas “Tias”, risos e mais risos suavam naquela sala.
“Morre” o Salazar e dá-se o funeral…as carpideiras (fingidas) choram a morte do seu mui amado presidente, gritam enquanto outros se riem.
Dá-se o 25 de Abril e acorda-se 34 anos mais tarde…
Entra o cromo da bola com a sua “tranquilidade”… Tudo “acabou” com as mulheres do povo em cima duma Égua, que virou Cavala, o Zé povinho atrevido a meter-se com o publico, e os rapazes e as storas a cantarem “A paz, o pão, habitação, Saúde Educação!”…
O pano fechou-se, e voltou a abrir-se ao som daquelas palmas maravilhosas, era o reconhecimento por parte de toda aquela multidão. O reconhecimento do nosso valor, do entusiasmo, das gargalhadas, dos momentos mais sérios, do sucesso…
Não existem palavras para descrever, só nos ocorre uma, a mais verdadeira e sentida: “obrigada”, apesar de acharmos insuficiente para demonstrar este sentimento, o quanto ficamos felizes com as palavras que ouvimos…enfim, estes foram alguns dos bons momentos que passámos nesta deliciosa peça.
O sorriso, a alegria, o orgulho que sentimos são as forças que precisamos para não deixarmos este percurso maravilhoso. Não queremos um fim, pelo contrário, quero mais e mais, queremos um sem fim de união, queremos que esta felicidade e prazer de fazer teatro com pessoas que adoramos perdure anos sem fim! Desejamos que este grupo que tanto nos uniu, que tanto nos fez sorrir, nos fez crescer continue, queremos mais momentos de cumplicidade e amizade, dentro e fora do palco, queremos aqueles momentos que tanto nos alimenta o ego, que tanto enriquecem o nosso coração feliz por todo este episódio ter acontecido e entristecido com a possibilidade de terminar…
“Uma desgraça nunca vem só” transformou-se em “uma alegria nunca vem só” e não veio mesmo, veio cheio de coisas novas: portas abertas, horizontes esplêndidos bem há nossa frente, amizades novas e fortalecidas, e tantas outras coisas...
Por tudo o que foi descrito imploramos que não nos apague a chama que nasceu em nós, que não nos destruam o sonho…
Com este teatro mudámos muito, (Ângela e Cátia) crescemos e aprendemos. Descobrimo-nos uma há outra, vivemos momentos únicos, especiais inesquecíveis. Conhecemo-nos e descobrimos que somos iguais, passámos de simples colegas de turma a verdadeiras amigas…um sorriso diferente, um olhar divertido, uma palavra amiga fez mudar tudo…tornamo-nos importantes uma para a outra, inseparáveis.
Enfim, muito por causa do teatro, pela união que tivemos de ter, pelos momentos incríveis que passamos em cima do palco, fora do palco, naquela tarde de tantas risadas, de tanta cumplicidade e amizade…

Não tirem este sonho tornado real das nossas vidas, porque do coração nunca ninguém as poderá apagar!
Aguardamos ansiosamente a(s) próxima(s) actuação(ões)

Obrigada.

Ângela Ribeiro

Cátia Castanheira

terça-feira, 20 de maio de 2008

Salva-me


Traz me de volta a esse lugar
Liberta-me das masmorras
Acorda a minha alma que dorme
Em um lugar frio e escuro
Depressa…
Estou a congelar
Sinto a alma a fraquejar
Estou a perder os sentidos
Já não penso, Já não sinto
Estou a desfazer-me, dilacerar-me
Se eu gritar, ouves?!
Não… já não me ouves
Já só escrevo, são meramente palavras
Não tenho voz, Não tenho cheiro
Não consigo ouvir, nem cheirar
Apenas escrever

Aqui não há sol, não há brilho
Aqui é somente noite
Noite sem estrelas, sem lua
Sem desejo de bons sonhos
Sem um beijo de boa noite

Salvas-me?Mas...

A tua fraqueza não te vai deixar chegar ao fim
A tua falta de vontade vai falar mais alto
A tua cobardia tem medo deste lugar.

Cobardia...


Cátia

domingo, 18 de maio de 2008

Uma realidade naturalmente natural ll



Lá ficámos os dois na nuvem branca e fofa, que passado dias ficara escura e molhada, molhada da chuva que voltou a cair…
O anjo partiu, levou com ele a magia que trouxera, fiquei eu e o passarinho mas a minha hora chegou, vou descer as nuvens, rumo a casa…
Sinto-me cansada, as minhas asas dilaceraram, que desgaste, que peso que tenho, peso de nada…
Cansaço, apenas cansaço, caminhei tanto, desci quase mil montanhas, é como no mundo real, quanto mais se sobe maior é a queda.
Finalmente cheguei, onde tudo começou, olhei para aquela janela, que me fez voar, que me fez andar por caminhos diferentes, aqui iniciei a viagem, que agora terminou.
Fui à porta, a tarde já estava a acabar e mesmo assim estava calor, pequenos raios de sol que aqueciam a Terra e os corpos dos mortais, ingredientes para um dia perfeito, mas a mim faltava-me algo, o calor não me aquecia, o coração gelado, a alma fria, era assim que me sentia perante aquele clima…”se ao menos estivesses aqui anjo.” Pensava eu.
Pertencemos a mundos diferentes, tu ao mundo da magia, dos anjos, das asas, eu pertenço ao mundo da realidade, dos sonhos que se realizam apenas no teu mundo.
Enquanto isso continuarei a sonhar, enquanto sonho sou extraordinariamente Feliz, enquanto penso em ti (re)nascem as asas…mas tudo isto não passa de pensamentos, o tempo vai passar, e talvez os nossos mundos se juntem novamente, talvez o sonho se torne realidade ou a realidade se torne um sonho.
Vou libertar o passarinho, voa passarinho voa, como nunca…
Vou fechar os olhos, boa noite e bons sonhos.
Ate sempre Anjo.
Cátia

sábado, 17 de maio de 2008

A caneta

A tinta preta ganhou vida, as palavras assumem uma identidade, as folhas dos cadernos estão hoje escritas por pensamentos, por coisas que me incomodam, por sentimentos presos em mim, que se libertam.
Estou cansada de telemóveis, estou cansada de coisas fúteis, de caminhos fáceis, sinto-me bem assim, natural.
A arte é um poeta escuro, que escreve…ora deprimido, ora feliz, um pintor que pinta, um cantor que canta, cada um exprime como quer ou como pode, o importante é fazer aquilo que nos completa, que nos esboça um sorriso, uma lágrima, um olhar mais brilhante, que nos emociona.
Adoro sentir-me natural, a alma fica pura, e a imaginação começa a ganhar voz., paira sobre um paraíso onde tudo é escuro ou brilhante. A imaginação não tem sequer limites, os limites enlouquecem, mas eu respeito-os.
Uma parte depende de nós, aos outros compete-lhes completar a vida, eles mudam-nos, desequilibram e equilibram o estado de espírito, alguns levam-nos o sorriso, outros levam-nos as lágrimas, uns simplesmente existem, a mim compete-me viver sobre regras e contra regas, conviver, ouvir, olhar, agarrar, pensar…viver simplesmente.
O que me move não sei, mas o importante é que me faz mover a caneta…


Cátia

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Uma realidade naturalmente natural

Lentamente subo as escadas, abro e fecho portas, caminho em ritmo lento, calmo e suave, chego a janela pronta para olhar, pronta para pensar no que me vier ao pensamento.
Debruço me sobre o regato frio e húmido, a frente dos meus olhos um vidro molhado da chuva que lá fora cai…Fico ali horas a observar tudo aquilo, se me apetecer pensar sobre porque a chuva cai penso, mas sou logo invadida por pensamentos antigos, palpitações impulsos no coração.
Abro a janela, para sentir o vento o frio que me bate na pele, o frio incomoda? Mas porque? o frio dói…o vento chateia-nos, mas desta vez não me importo, hoje nada me magoará mais, nada me vai chatear.
Com o frio e vento sob mim, eu dispo-me, fecho os olhos, o cabelo teima em bater me nos lábios, o cérebro fixa o som da chuva e de toda aquela naturalidade, se fosse livre eu voaria, andaria sobre nuvens, e seria como um pássaro, teria asas como um anjo...
Mas hoje chega de sonhar, hoje quero ser eu apenas eu, quero adormecer sobre mim, explorar-me, quero sentir a minha alma, quero sentir me como um anjo, somente natural, sem duvidas, sem sonhos, sem uma realidade certa, e só amar, apenas amar e amar, amar o que não sei, mas Amar tudo.
Voar, não preciso de voar alto, só preciso de me sentir com asas, quero tanto.
A chuva parou, mas o frio continua, e desta vez o frio magoa-me mas não me importo, um anjo suporta qualquer dor… e hoje sou um anjo.
Posso me imaginar a pular nas poças de água, a encharcar-me com lama, molhar os cabelos, sentir-me livre como um anjo.
Deitar me numa nuvem a secar, abraçar a luz, beijar algo frio, e derrepente chegas tu… chegas tu meu anjo, com um pássaro e um cobertor na mão e dizes me que um anjo não precisa de sentir frio para ser feliz, e ali ficamos os dois em cima duma nuvem.

Cátia